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LIVING ON D-EDGE
Vivendo na ponta do D-Edge
Para realmente entender o D-Edge de São Paulo você realmente precisa perder a cabeça lá, que foi exatamente o que fizemos…

Mesmo sendo uma das economias que mais cresce no mundo, o Brasil não é conhecido por ter uma boa seleção de clubs undergrounds. Bem ao contrário, a progressiva bonança entre a classe alta, especialmente entre os jovens profissionais liberais, de modo geral asfixiou os clubs que têm proposta musical séria. Celebridades da lista VIPVIP [A-list], jogadores de futebol e modelos comprando champagnes borbulhantes, estão todos onde o dinheiro está. Não com bagunçados geeks da música mais interessados no modelo do mixer do DJ do que no mixer de coquetel com gelo da cabine.
No entanto, isso não impediu um club de São Paulo de se manter fiel aos princípios do clubbing tão prezados por Berlim e Londres. Aberto em 2003, o D-Edge tem a determinação de bookar DJs baseando-se em suas credenciais underground e não em sua capacidade de atrair consumidores endinheirados, o que lhe valeu apoiadores mundo afora.
Embora esteja audaciosamente abrindo essa trilha por mais de nove anos, em uma nação já bastante imersa em uma tradição efervescente de carnaval e batida de samba, ainda é percebido largamente como uma anomalia dentro da capital financeira do Brasil.
É por essa razão que Renato Ratier, o proprietário do club, é tido como nada menos do que uma figura de proa dessa subcultura. Alternando entre sets como DJ residente no D-Edge e no club-irmão do Sul, o Warung (da sociedade do qual ele tem para si 25%), tours frequentes pelos clubs mais finos da Europa e releases do label do club, sua tutela do house e techno de ponta não é nenhum segredo, ainda que dentro de um círculo do nicho local. O refinamento do house e do techno podem estar aumentando no Brasil, mas ainda está a quilômetro de distância da potência que tem na Europa. O fosso entre o alto e baixo escalões da sociedade ainda supera em muito o presente em outros lugares da sociedade ocidental. Essa economia BRIC pode estar indo bem em comparação com com mercados financeiros desenvolvidos, mas a corrupção manda o dinheiro pra cima, forrando o bolso dos mais privilegiados e portanto frustrando um rápido crescimento da classe média. Como consequência, os clubs miram aqueles que de fato têm rios de dinheiro de sobra, para compensar. Geralmente, estes não são o tipo de baladeiros que se interessam em ver Martin Buttrich e Adam Shelton no D-Edge em uma noite como a de hoje, uma quinta-feira. Seria então que isso pressiona os promoters para bookar festas comerciais para equilibrar as contas? Não para o Renato.
“Quero ser bem-sucedido e fazer dinheiro, mas jamais vou fazer coisas estranhas para fazer dinheiro”, ele explica à DJ Mag com um ar de nobreza. “Eles sabem minha história, eu gasto meu dinheiro para perseguir meus sonhos. Então o envolvimento é programando, bookando, e vamos pensar em re-modelar o club, mudando o conceito um pouco para tentar melhorar. No Sul do Brasil, as pessoas curtem mesmo música. Elas têm que confiar em você, mas você também tem que forçar seus limites.”

Esse modelo do D-Edge – trazer talentos internacionais relativamente desconhecidos (em nível local, de qualquer forma) em troca de ingressos a uma faixa de preço acessível -, tido como insuficientemente atraente para que outros o sigam, é precismente o que o manteve vivo. Segundo Renato, enquanto outros clubs do Brasil estão promovendo a dance music underground em outros locais – Club Vibe (Curitiba), Beehive (Passo Fundo) e Warung (Camboriú) -, o D-Edge permanece bastante solitário em São Paulo, a maior cidade do país.

Pode parecer um clichê, mas o coração do Renato está empenhado na música, não em fazer dinheiro. A falta de concorrência testemunha a demanda limitada do Brasil, mas manter-se fiel aos princípios tem lugar central no programa do club.
“É financeiramente viável, trabalhamos duro para manter a qualidade e estamos sempre à procura de novos caminhos”, acrescenta Renato. “Estamos agora em meio a uma crise internacional mas estamos mantendo ainda investimentos em pontos necessários para manter o club ativo. Consideramo-nos um investimento no conceito, então é um projeto sustentável com certeza. E nós consideramos o D-Edge uma instituição, não apenas um negócio.”

Além disso, não foi apenas a política musical de competir com qualquer um da elite europeia que lhe permitiu conquistar corações. Mais alinhado com estabelecimentos como o Watergate ou o agora agonizante Cocoon – devido a seu interior reluzente, tipo era espacial – do que com os indistinos túneis e galpões do East London, o D-Edge é cercado por uma aura mística para aqueles que lá ainda não entraram, especialmente de um ponto de vista europeu. Ganhando a advocacia explícita (e repetidas visitas) na figura de Luke Solomon, Sven Väth e Solomun, ele existe nas mentes dos não-iniciados não apenas através desse apoio permanente, mas também através do anseio gerado por fotos das estrelas mais brilhantes do underground na frente de um visual tipo Tron,com faixas cúbicas de neon e paineis modulados de laser. Os outsiders de São Paulo ouvem o nome reverenciado do club ser sussurrado a meia voz e olhares de cumplicidade. Ocupando um canto muito próprio da vida noturna da cidade, é um farol que não passou despercebido.
Ao entrar, é a decoração ultrachique que surpreende. No andar de cima, o compacto ambiente VIP recém-aberto, com seus house grooves suaves para warm-up, parece quase ter sido gerado eletronicamente, com suas paredes e tetos de tiras de luz de um vermelho profundo se estendendo em um salão de espelhos: uma ilusão de ótica que dá impressão de profundidade, algo potencialmente perigoso para a clientela novata à procura dos toiletes do fundo.

Enquanto isso, no andar de baixo, o enérgico house tingido de techno do chefe da One Records, Adam Shelton, está agitando uma comoção da entusiástica congregação abaixo; sua percussão forte e ágil acolchoada por um vigoroso groove, infectando com loops em espiral, samples de vocal e acordes cheios de alma.

Esse salão principal – uma alta e inteiriça caixa de preto absoluto coberta com quadrados luminosos piscantes, que dão ao piso plano uma sensação de dimensões variadas (o que fica complicado depois de alguns vodkas) – é algo que você esperaria de um sonho molhado do Steven Spielberg: paredes altas, um arranjo dinâmico de faixas de luz em movimento e uma superfície de LED pulsante atrás da cabine elevada do DJ, perfazendo uma experiência de total imersão – o cenário perfeito para Martin Buttrich entrar e entregar um house profundo de alterar percepções.
Nivelando essas vibes da era espacial para combinar com o entorno futurista, mas com harmonia suficiente para colocar a massa em transe hipnótico, o set de Buttrich constrói a partir de um house lascivo o caminho até o techno mais andante, ainda com a mesma musicalidade majestosa que aprendemos a esperar do co-chefe da Desolat. A essa altura, a área VIP à direita da cabine já está pulando tanto quanto o dancefloor, e a pressão interna vai atingindo o cume do nível óptimo.

Lá fora, no terraço para fumantes do telhado já são 6 da manhã e o bar continua funcionando a toda enquanto o brilho alaranjado do nascer do sol vai despontando e as massas animadas dos baladeiros continuam congregando-se em elevado espírito. Abaixo, o ambiente VIP inspirado no ano 3000d.C. está também vibrando, manejado por um Diogo Accioly que alinha um vivaz set de clássicos, enquanto mais pra baixo, no primeiro andar o ambiente principal tem a galera implorando por mais um bis antes de Buttrich encerrar seu set delicadamente montado em camadas de um sublime techno de liames sônicos. Composta por múltiplas facetas – a elegante e intimista sala VIP, o espetáculo do ambiente principal e o terraço para fumantes no teto -, a experiência D-Edge é o banho de intensidade de arrebatamento sináptico que se pode esperar de um superclub de ponta. No entanto, você não encontrará muitos outros com uma linha musical desse apuro – nem na Europa. Que dirá no Brasil. Adam Saville

Uma noite no D-Edge
O D-Edge é a ponta de lança da cultura clubbing. Não apenas no Brasil, mas em toda a América do Sul.

Estabelecido em 2003, a história do D-Edge sempre foi underground. Apesar do típico som paulista – comercial -, oD-Edge sempre apostou em sons mais vanguardistas. Além do club, recentemente foram criados um selo e uma agência, ambos já com reputação na cena. Dentro do club, a essência underground foi bem levada a sério, combinando um sistema de som de altíssima qualidade com um jogo de luzes espetacular. Não é por acaso que o D-Edge seja também famoso por seu jogo de LEDs, premiado e copiado em todo o mundo graças a seu inovador design.

Shonky já estava nas pickups quando chegamos ao club. Totalmente surpreendido pelos milhares de LEDs brilhando em uníssono, rapidamente ficou claro porque o D-Edge é tido como um dos grandes clubs do mundo. Não é coincidência que a maioria dos grandes DJs da história tenham tocado aqui… A sessão do francês foi uma verdadeira viagem de deep house, cheia de edits disco e sempre com uma pegada muito sexy. Perfeito para a pista do D-Edge, que estava bombando.

Renato Ratier é o proprietário e DJ residente do D-Edge. Colocou-se no comando da nave no momento de tensão máxima da noite, por volta das cinco da madrugada. Misturando temas de artistas como Azari & III e Nicholas Jaar, ele encontrou justamente o que tinha que por para aquele momento, e o que o público queria.

Atualmente em seu nono ano de vida, sem dúvida está na Liga dos Campeões dos clubs. Um lugar onde todos os grandes artistas da cena eletrônica pedem para tocar. O D-Edge é o local que você tem de visitar se tiver a sorte de estar no Brasil. Cobre todos os estilos: house, techno, disco… Todas as semanas, está cheio de ávidos clubbers locais e fãs da música eletrônica. O club perfeito, o tempo da música eletrônica da América do Sul.





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