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2012-06-01-Mixmag

MIXMAG MAY D-EDGE FEATURE

Enquanto o mundialmente famoso carnaval do Brasil, uma avalanche de cores berrantes acompanhadas pelas batidas de tambores de aço que todo ano consome o país inteiro durante uma semana, acontece a todo vapor, a galera no D-Edge de São Paulo está dançando no compasso de uma batida totalmente diferente. Garotas de uma beleza de derrubar o queixo, em roupas coladas e sobre saltos-altos vertiginosos, dividem caipirinhas com hipsters magrelos que poderiam ter acabado de sair de um armazém do East London.
Um dos faróis da música house, Solomun, acabou de entrar na cabine do DJ e sua chegada ao som ribombante de seu próprio remix da “Let’s Go Back” do Kraak&Smaak é saudada com uivos, as batidas de punho no ar e um tanto de gente cantando junto com o refrão “Open up your mind, brother” (Abre sua mente, irmão!).
Em um país definido pela luz do sol, pelos vastos litorais dourados e pelo samba feito ali por mais de cem anos, o D-Edge de São Paulo é algo como uma anomalia. A decoração do club – paredes de preto absoluto intercalado por explosões de cor dos paineis LED – está mais para Tron do que Cidade de Deus, e a trilha sonora de deep house estiloso e mid-tempo [[em contratempo]], a anos-luz da ideia de um samba luminoso e risonho de cartão postal que a maioria das pessoas associa ao maior país da América do Sul.
Não, esse é o Brasil do futuro, um país cuja crescente economia está atrás apenas da China em velocidade de crescimento das operações, um país que, com sua riqueza recém-adquirida, descobriu em si um apetite quase insaciável por música dance eletrônica.
A galera, uma mistura de brasileiros aficcionados por música eletrônica e classe média que cresce rapidamente (estima-se que 40 milhões ascenderam a ela desde 2003), também não é bem o que você esperaria a partir do Brasil estereotipado como favela e boleiros descalços.
Aberto há 12 anos pelo homem forte da cena, o DJ residente Renato Ratier (a quem o editor da Mixmag Brasil Eliezer Souza Carvalho se refere como “a pessoa mais preeminente e relevante da dance music brasileira hoje”), o D-Edge presenciou ao longo dos anos todos, de Richie Hawtin e Ricardo Villalobos a Derrick Carter, acenderem as paredes de LED, e ganhou a reputação de club mais confiável do Brasil.
Ao passo que os Warungs e Green Valleys do Sul do Brasil – templos de dance music ao ar livre, segundos de distância da praia – fazem frente até às megabaladas de Ibiza, o D-Edge está mais pra família dos Watergates e Fabrics deste mundo.
Sediado originalmente na cidade natal de Ratier, a provinciana Campo Grande, o D-Edge mudou-se para São Paulo em 2003 após o local original ter sido obrigado a fechar, e assim virou um catalisador para o caso de amor crescente do país com a dance music. Em meio ao feitiço do trance e do d’n’b na cena do Brasil daquele tempo, a linha do D-Edge de apresentar o fino da house e do techno causou espanto.
“Estávamos fazendo festas imensas para dez mil pessoas na minha cidade natal, as pessoas das cidades maiores se surpreendiam”, Renato explica sobre a faísca inicial dessa mudança.
“Eram as maiores festas do Brasil naquele momento. Um ano depois houve uma festa trance massiva chamada Experience, para doze mil pessoas, mas até então ninguém havia feito algo tão grande [quanto a nossa]”, acrescenta ele.
No alto de seus 1,95 metros, vestindo uma camiseta preta dois tamanhos maior e portando um conjunto de colares de dar inveja no Mr.T., Ratier parece um tipo intimidante. Mas foi sua natureza de uma simpatia transbordante e contagiante energia para festas a força motriz do sucesso do D-Edge.
Conhecido por tocar sets que ultrapassam facilmente a marca de dez horas contínuas e por oferecer uma hospitalidade digna da realeza (bem, uma realeza caprichosa – mas ainda assim uma realeza), não é surpresa que os DJs não vejam a hora de voltar ao D-Edge.
“Eu adoro tocar back to back e me divertir nas pickups”, comenta Renato com seu forte sotaque brasileiro e um sorriso malicioso. Ora, fiel à sua palavra, ele de fato faz a festa adentrar um bom tanto da tarde, rodiziando na seleção das músicas com o Solomun enquanto as garrafas de champagne passam de mão em mão na cabine do DJ.
A cena se repete alguns dias depois conforme o espetáculo D-Edge pega a estrada para incorporar o Warung do sul do Brasil (onde o set estendido de Ratier dá dor de cabeça pros seguranças), antes de seguir viagem pra Music Conference do Rio e finalmente para uma festa em um iate na maravilhosa baía carioca, ao som das jams de puro êxtase do Soul Clap.
Mas o que o futuro guarda para o D-Edge? Com a recente expansão para três andares, incluindo um terraço no teto onde você pode apreciar o nascer do sol no imenso skyline de São Paulo, e com conversas sobre uma linha de vestuário, compilações seriadas e a possibilidade de montar clubs em outras cidades, o futuro do D-Edge parece ilimitado.
Mas Ratier não tem ganas de fazer o D-Edge crescer apenas por crescer. “Se posso expandir para, digamos,o Rio, e manter a qualidade, isso seria genial. Mas eu não desejo construir necessariamente um império”, pontifica Ratier, com sua firmeza a sublinhar a clareza de visão.
Observando por sobre a dancefloor enquanto a massa louva a impecável muralha de deep house erguida por Solomun e Renato, se misturando à hipnótica sincronização de música e luz, parece que as paredes de LED dessa nascente lenda brasileira ainda irão pulsar por muito tempo.

Cutting Edge,compilação de Luke Solomon, acabou de sair pela D-Edge Records





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