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Resident Advisor entrevista Renato Ratier

O Brasil é normalmente alardeado como a grande esperança num admirável mundo novo para a música eletrônica. Contudo, ao que parece, tem tido problemas em dar um passo além da porta após algumas tentativas frustradas durante a última década. Um estudo recente afirma que o Brasil é “agora o país da música eletrônica”, citando números chamativos de crescimento do mercado como evidência, embora o fato de que o estudo foi encomendado pelos realizadores do Rio Music Conference deve dar uma idéia sobre o grau de autonomia desses achados. Contudo, a positividade musical está definitivamente em alta no maior país da América do Sul.
Em uma viagem recente ao Brasil, tiver a oportunidade de ver em primeira mão o quão vibrantes as coisas são por lá, primeiramente por São Paulo, onde o D-Edge – com seu renomado sistema de iluminação – tem sido maioritariamente o ponto focal da cultura noturna da cidade por quase uma década, e depois mais ao sul no Warung Beach Club em Santa Catarina. Também conferi o final do Rio Music Conference que se estende por 10 dias, o candidato mais provável a se tornar o ADE sul-americano.

Enquanto fundador, proprietário e residente do D-Edge, Renato Ratier é, naturalmente, algo como uma figura de proa para a cena. Um personagem extravagante e cativante, ele se prestou como meu guia turístico no decorrer de minha estada, durante a qual sua ambição se mostrou claramente indicativa do grau de maturidade por ela alcançado. Ou talvez isto seja generalizar demais: tendo aberto caminhos pelos últimos quinze anos no Brasil, Ratier pode dificilmente ser descrito como qualquer outro promoter ou proprietário de clube. Ademais, enquanto discutíamos seu passado, presente e futuro, era difícil não sentir que suas palavras poderiam servir, no mínimo, como um chamado para cena brasileira mais ampla.

Qual foi seu primeiro contato com a música eletrônica?
A música eletrônica sempre esteve presente em minha vida, desde minha infância, mas eu comecei a trabalhar com ela – mais especificamente, a dance music – em 1996, quando realizei minhas primeiras festas e também tocava. Sempre foi algo natural; comprar discos, tocar para os amigos, então apenas fazendo pequenas festas, não ainda tentando ser DJ. Foram meus amigos que começaram a dizer que eu deveria tocar de maneira mais séria, então eu só comecei a me entreter de verdade, tocando back-to-back, tocando por oito horas ou até mais, até hoje faço isso.

Onde foi isso?
Eu nasci em São Paulo, mas minha família é de Campo Grande, no centro do Brasil, no meio da América do Sul de fato.

E não havia muito de uma cena no Brasil então?
Não havia cena alguma. Era difícil, então eu criei um programa de radio, uma revista e também tinha uma loja. Tranquei meus estros no Rio, meu pai havia me dado uma fazenda para cuidar, algumas reservas e propriedade, dizendo: “Isto é para você, agora vá em frente e faça sua vida.” Eu comecei o clube logo após isso e também abri uma loja e duas marcas de roupas. Trabalhei muito com moda naquele tempo, tentando conectar a moda, a música e a as artes. Minha loja vendia discos, pequenos objetos, ingressos para eventos e também fazíamos desfiles. Eu procurava unir as pessoas pela música, figuras da moda, das artes, da fotografia, sempre no intuito de fazê-los se interessarem mais pela música.

E o D-Edge foi criado em Campo Grande em 2000?
Bem, eu tinha um clube já em 1998 em sociedade com alguns amigos, mas saí porque o projeto não estava tomando o rumo que eu desejava. Depois eu encontrei o local que posteriormente se tornaria o D-Edge, e ele durou por cinco anos e meio, mas também tive de parar suas atividades pois inauguraram um hospital logo em frente e a entrada de emergência dava de cara para o clube! Era penoso naquela época porque comecei com a música mais undeground ao invés de apostar no Trance ou no Drum & Bass que era tão popular então, graças ao Marky. Eu convidei gente como Craig Richards, layo & Bushwacka!, mar Farina e Luke Solomon. Em breve, os DJs e promotores de São Paulo já sabiam sobre o D-Edge em Campo Grande, assim como a imprensa especializada.

Qual o significado do nome D-Edge?
Eu fiz uma lista enorme com diversos nomes e pensei neste porque ele representa o que nós (as pessoas na cena) gostamos [algo inovador, no limite, além das barreiras]. Isso se aplica à tecnologia, som, luz, e design; no primeiro D-Edge, devotamos muito tempo ao som e ao design.

Em 2003 voce inaugurou o que atualmente é o D-Edge em São Paulo. O que rolava na cidade naquele tempo?
Havia alguns clubes em São Paulo, mas àquela época eles investiam num quinhão musical diverso do de Campo Grande, principalmente Hard Techno, Drum & Bass e Trance. Nesse tempo eu também curtia House e Techno mas não tanto as coisas mais pesadas. De qualquer modo, vários DJs paulistas que vinham tocar em Campo Grande me diziam: “Você precisa abrir um clube em São Paulo”, principalmente porque não havia clubes nos quais podiam tocar seu estilo de música. Eu também tocava regularmente na cidade nesse período e foi uma grande coincidência, já que não planejava abrir clube algum, mas após tocar eu fui a este lugar chamado Stereo – que funcionava no imóvel em hoje é o D-Edge – e eu conhecia o cara por trás da casa das minhas festas em Campo Grande. E, bem, eles me deram a chance de comprar o lugar…

Qual era o conceito inicial?
Trabalhamos com Muti Randolph, o mesmo designer que concebeu o D-Edge em Campo Grande, mas sob uma perspectiva totalmente renovada. O original era colorido, bem ao estilo dos anos 60, dezenas de linhas que se ligavam como na placa-mãe de um computador, mas também possuía um ar urbano e, é claro, psicodélico. Ele se assemelhava a uma grande máquina. O D-Edge atual tende mais para uma visão dos anos 80, ainda uma máquina com todas as suas luzes, mas com uma aparência mais moderna, ainda que não deixe de possuir um clima retro.

E quanto à proposta musical?
Eu basicamente apenas seguia, e ainda sigo, meu gosto. Eu preciso apreciar o que é tocado. Não é apenas porque tal coisa não estava ali…

Do que você gostava então?
Muitos dos nomes que trouxe a Campo Grande. Além do pessoal de Chicago, a segunda geração de talentos, como Derrick Carter; nós costumávamos ter uma festa bimestral da Classic Records no D-Edge. Assim como muitos dos artistas de Detroit, Kevin Saunderson e Stacey pullen, o lado mais cheio de grose e mais funky. Eu já conhecia muitos deles dos tempos em que tocaram em Campo Grande.

Como a programação se desenvolveu no decorrer dos anos?
No Brasil, em comparação com outras partes do mundo, você possui muitas influências. Não apenas uma sonoridade específica. Então Berlim, Londres, Chicago, Nova York, todos esses locais foram uma influência, mas sempre tentamos manter um equilíbrio entre os pioneiros e seu som com as coisas mais recentes.

Os DJs locais também encontram oportunidades?
Eu trabalho bastante neste sentido para tentar ajudar a desenvolver nosso talento, não sendo ufanista a respeito disso, mas apenas ajudando a trazer artistas de todo o Brasil também. Contudo, é verdade que o público tende a sobrevalorizar os nomes internacionais porque não temos artistas famosos por aqui. É um processo e, em alguns anos, teremos mais nomes reconhecidos.

É esta a grande barreira então? Produzir música? Falamos ontem sobre o Dubshape, que obtiveram boa exposição através de lançamentos por selos como Kompakt, 8-Bit e Crosstown Rebels mas ainda não se traduziu num reconhecimento mais amplo.
Sim, eles alcançaram um relativo sucesso internacional, ainda que por alguns lançamentos em alguns selos. Não é algo que simplesmente aconteça dessa forma (estala os dedos). É engraçado no Brasil, todo mundo fala sobre Jamie Jones como se ele fosse um novo nome, mas ele já está por aí há anos. Precisamos de mais tempo. O país é um país jovem e a cena é nova se a compararmos aos Estados Unidos e à Europa. Entretanto, eu não penso nos aspectos ruins. É como o português, uma língua diferente que poucas pessoas falam, a geografia também é um fator determinante. Estamos bem longe da Europa e da América do Norte e também é difícil para as pessoas aqui adquirirem os equipamentos e programas necessários para produzirem música.
Em alguns anos acho que podemos contribuir com novos artistas. Abriremos um novo lugar em São Paulo, um lugar comunitário, um bar e restaurante com um estúdio, para que possam se encontrar. Penso nisso como em algo similar a Berlim, onde há inúmeros artistas vivendo ali, compartilhando o espaço, saindo juntos, se encontrando. Este contato é importante. Tentaremos fazer algo semelhante aqui, fornecendo um lugar com um bom estúdio, boa masterização, um bom engenheiro. Eu realmente penso que isso ajudará imensamente.

O D-Edge também mudou nos últimos anos.
Ampliamos o clube há um ano. Inicialmente, era somente a pista principal e agora agregamos mais duas, além do terraço. O clube é maior, mas também podemos fechar as outras salas, mantendo apenas uma, ou uma festa no terraço. Agora pensamos em expandir o clube para o estacionamento logo ao lado, onde poderemos realizar eventos com bandas e performances ao vivo umas três ou quatro vezes ao ano. Durante o dia seria um espaço para outras coisas interessantes como moda, carros personalizados, motos, equipamento e instrumentos musicais.

E onde esta expansão termina?
Às vezes acho que é importante ter um D-Edge fora do Brasil. Há alguns meses fui para Nova York e procurei um lugar para fazer o D-Edge ali, o que seria ótimo por conta de haver tantos excelentes artistas por lá e uma história, ainda que sem tantos clubes atualmente. No entanto, sinto que ainda há muito a ser feito aqui mesmo. Este ano vamos realizar um festival para 8000 pessoas em setembro, associando-nos o mesmo grupo que fazia o Skol Beats, pessoas com experiência nesse ramo do mercado. Nós cuidaremos dos artistas, line-ups, design, o conceito do festival como um todos nossos parceiros cuidarão da organização do evento propriamente dita. Já fizemos algumas festas fora do D-Edge, para 2000 pessoas, mas esta será muito maior. Ah, e também sou um sócio do Warung…

Diga-nos mais a respeito. Você agora possui uma cota de 25% de propriedade no clube, certo?
Bem, comecei como um residente ano passado e os proprietários imaginaram que seria importante promover uma parceria, então começamos a procurar artistas juntos e trabalhar através da agência do D-Edge. Eles sabem que podem confiar em mim porque eu gosto da música e gosto de festa. Quero ser bem-sucedido e fazer dinheiro, mas jamais farei algo esquisito para ter lucro. Eles conhecem minha história, eu gasto na procura da realização dos meus sonhos. Então meu envolvimento subentende a programação, os bookings e agora vamos nos esforçar em remodelar o clube, mudando um pouco o conceito em busca de aperfeiçoamento. No sul do Brasil as pessoas estão realmente ali pela música. Elas precisam confiar em você, mas também é preciso desafiá-las ao mesmo tempo.

E quanto ao D-Edge no Rio?
Sim, estamos implantando nosso conceito ali e planejamos ter um clube na cidade até o final do ano.

Como é a cena ali?
É estranho, difícil de explicar. Eu procuro muitas vezes entender porque já realizei oito festas naquela cidade para 2000 pessoas, com grandes nomes como Cobblestone Jazz e o pessoal da M_nus, mas é muito complicado organizar as coisas no Rio. A cidade precisa de um lugar com uma equipe séria realizando um trabalho sério e isso não vai acontecer da noite para o dia. Precisamos de muito tempo e paciência para concretizar nossos planos. O D-Edge carioca terá duas pistas, uma para 400 pessoas e a outra para 500, assim poderemos oferecer espaço para quase 1000 freqüentadores, assim como também podemos fazer festas mais inimistas se quisermos.

Imagino que voce espera que a casa possa se tornar um ponto de referência para clubes no Rio, como o D-Edge é em São Paulo.
Exato, quando as pessoas respeitam o que você faz e são influenciadas, isso é positivo, isso é bom. Mas quando as pessoas apenas copiam, isso não é nem um pouco bom. Então, somente tentamos ter novas idéias e… bem, só precisamos estar um passo a frente. Em São Paulo temos outros clubes, mas eles não levam tudo tão a sério como levamos. E não quero dizer sério no sentido de não ser divertido. Quero dizer que amamos isso, nós acreditamos na música e vamos continuar a fomentar tudo que apreciamos. Assim, não é sempre fácil, mas fazemos do mesmo jeito. Quando abrimos, tivemos muitas pessoas curiosas em conhecerem o clube, algumas ficaram desconfortáveis mas muitas outras permaneceram desde então e agora temos todos aqueles que amam nosso conteúdo musical. Esta é a marca distintiva do D-Edge de São Paulo. Sim, temos alguns fashionistas, mas eles são amantes da música mesmo assim. Gosto de saber que ainda conectamos pessoas através dela exclusivamente.





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