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2012-11-08-The-Independent-Blogs

Living life on D-Edge: Renato Ratier fala sobre seu club e a cena brasileira

Por Marcus  Barnes

Artes, Música

Quinta-feira, 8 de novembro de 2012 às 16:00

 No Brasil a economia, bem como a música eletrônica, está progredindo. Como é de se esperar, a cena ali é vibrante e plena de energia, com diversos músicos e DJs se fazendo valer em uma escala local (e global). Um dos clubes mais famosos do Brasil é o D-Edge, do empresário e DJ Renato Ratier. Atuando em uma área econômica com bastante crescimento, Renato tem planos grandiosos e muita compreensão da cena brasileira. Eis o que ele tinha a dizer.

 Qual é a tua trajetória como empresário?

 O principal ramo da minha família é agricultura e pecuária [tradução direta de farming vai ficar redundante]. Eles também têm alguns depósitos, então eu comecei com isso. Comecei a organizar festas por volta dos 16 anos de idade. Depois parei por um tempo pra fazer a faculdade, cursei uma espécie de agrinomia. Então me mudei pro Rio pra estudar Direito, mas na verdade logo decidi parar e me mudei pros Estados Unidos por alguns anos. Aí voltei pro Brasil e comecei a trabalhar com moda e festas. E em 99 abri um clube. Foi tipo uma bola de neve a partir daí.

 E foi nos EUA que você ouviu música eletrônica pela primeira vez?

 É, primeiro eu morei em Los Angeles, e um ano depois me mudei pra Newport Beach. Daí que estava indo pra vários tipos de festas, tudo, de raves no deserto até baladas disco. Nunca era só um tipo, eu escutava tantos tipos de música naquele tempo!

 Houve algum DJ que te marcou de verdade?

 Foi só quando mudei pra Europa que comecei a sacar alguns DJs de verdade. Antes, lá na California, a música eletrônica estava bem longe de ser meu único interesse, entende? Em 1993 eu ainda estava mais interessado em bandas tipo Depeche Mode do que nos vários DJs ou tipos de música de rave. Em 1995 eu fui ver os Chemical Brothers e a música deles começou a me impressionar. Eu gostava de house e techno de Detroit, mas o techno nunca me ganhou pra valer mesmo naquela época. Simplesmente me parecia muito rápido, eu me interessava mais por melodia.

 Eu queria te perguntar sobre o club também. Houve algum club que foi tua grande inspiração?

 Honestamente, não. O D-Edge não é tão inspirado em outros clubs. Quando começamos o club, queríamos que fosse único. O designer, Mitu, tinha uma mentalidade parecida, porque queríamos fazer algo diferente. Quando bolamos ::: desenvolvemos [came up with] o conceito, queríamos fazer algo parecendo uma máquina, como se houvesse um monte de ideias diferentes e todos os espaços fossem uns hardwares gigantescos. Para o primeiro ambiente queríamos uma porrada de cores, o segundo é quase retrô, mas futurista com todas as luzes. É isso é como São Paulo de certa forma.

 Então você diria que outros clubes foram inspirados pelo D-Edge?

 Sim, com certeza! O Sankeys de Manchester e Ibiza por exemplo. O Cabaret de Londres também. Mas isso é bom, porque é um elogio ao designer. E há outros que se inspiraram no antigo club de Campo Grande…

 Quando você começou o D-Edge São Paulo, você achava que o público estava pronto pra música eletrônica aqui?

 Sim, eu achava, e tomou um tempo até que sua influência fosse palpável. Mas tivemos sorte porque tínhamos um núcleo e após a expansão do club imediatamente tivemos mais gente interessada e envolvida. Ao mesmo tempo, foi bom para algumas pessoas, que passaram a ter um novo lugar pra ir e uma nova música que eles adoram. Ajudamos a criar uma cena e o club ganhou um público cativo. Demos uma alternativa às pessoas, e passamos a ser como uma família para nossos visitantes habituais.

 Como quando abrimos os novos ambientes: várias pessoas vieram ver, gente que nunca tinha estado no club antes. Algumas pessoas não encararam muito bem isso, viam os novos visitantes como invasivos de certa forma. Mas logo depois a multidão deu um assentada, ficou mais consistente, e o público que entrava o fazia pelos motivos certos. Agora, creio que temos uma galera incrível toda semana, e tentamos abarcar todo tipo de gente, receber bem todo mundo. Mas sim, agora temos uma noção melhor de como tocar as coisas…

 Então acho que posso dizer que o club despontou junto com a popularidade da música eletrônica na cidade, certo?

 Bem, sim, ambos cresceram rapidamente, mas, ao mesmo tempo, também outros sons, mais comerciais. Mas sim, acho que fizemos uma diferença como apontado. Se compararmos nossa cena com lugares da Europa ou EUA, nós estamos indo um bocado bem. Em Sao Paulo e no Sul, temos uma boa galera, gente que ama boa música.

 O governo etc. apoia o club?

 Não, não muito. Aqui  não temos problema com os horários de funcionamento, mas no Sul sim, temos que fechar o Warung às 7 da manhã. No ano passado, não tinha isso, nesse ano é que começaram a nos perseguir um pouco. Não estimulam os turistas a vir ao D-Edge, tampouco.

 Demorou um pouco para a música eletrônica se popularizar no Brasil. Você acha que isso foi assim por quê?

 Bem, eu suponho que em São Paulo, sendo cinzenta e industrial, o techno encaixa bem. Mas o Brasil é um país tão grande, que sempre haverá muitos sons diferentes. E no culturalmente, há lugares muito diferentes entre si no Brasil também. Além disso, antigamente, era muito caro abrir um estúdio, ao passo que hoje em dia dá pra fazer tudo em um laptop, então também é  muito mais fácil pro som florescer. Eu consigo ver uma mudança chegando. E na economia é um momento bem diferente aqui, também.

 A situação econômica no Brasil impactou quanto ao tipo de público que vem ao D-Edge?

 Bem, é uma coisa interessante, porque gostamos de estar abertos para todos, e sempre atraímos um tipo diferente de galera. É mais definida pela cultura do que pela economia. Então o nível social não é importante no club, e essa é a essência do clubbing, não é? Manter o ritmo ::: manter a harmonia e juntar as pessoas… Keeping the balance and bring people together…

 Como você vislumbra a cena no Brasil daqui a dez anos?

 Eu acho que só vai ficar maior, maior e mais especial. Sobre o Rio, eu tive aquela ideia e levei um tempo até achar um local adequado para abrir. Mas eu queria mesmo encontrar um lugar no qual eu poderia fazer mais do que apenas um club. Estava com essa idea havia dez anos, como aquela que tive para o Rio. Mas fui convidado para virar sócio de um club no Rio, e exatamente ao mesmo tempo para outro em Berlim, então ultimamente tenho estado incrivelmente ocupado!

 Eu estava à procura de um lugar no Rio por oito anos e ambos aconteceram ao mesmo tempo. Mas eu encontei um lugar onde poderia abrir um club, uma galeria, um restaurante, uma loja e um estúdio. Vai ser um lance cultural e não dependerá só da vida noturna, entende? Então, para mim, isso é algo especial. Sobre Berlim, está tudo bem alucinado para mim agora, mas todas essas coisas podem se apoiar mutuamente e as ideias podem ser aproveitadas. Quanto mais experiência eu tiver, melhor posso trabalhar. No Rio é estranho porque é lá que está a cena funk – e também todos os grandes músicos,  cineastas e estilistas. Então tem já muita cultura e arte por lá. Mas é meio underground lá, então nós queremos juntar todas essas pessoas, botá-las pra conversar.

 Em São Paulo é de outro jeito. Vai ser tão importante pra ajudar a cena a crescer no Rio! Quando você conecta toda essa galera, dá pra fazer uma festa incrível. Não tem nada assim no Rio – ou no Brasil.

 Você se sente responsável pela cena brasileira?

 Sim, mas não o faço por ser político [because I’m a politician] ou por grana – eu faço porque amo a música. Se você quer fazer e pode fazer, por que não fazer? Eu sinto alguma responsabilidade sim, porque não vejo muitos outros com a mesma oportunidade que tenho. Vejo gente que quer fazer, mas por motivos errados, e esses nunca duram. Nunca entendo esses agentes aqui que trabalham no nível comercial e no underground. Não é fácil fazer todas essas coisas, mas a gente faz porque ama!

 Colaborou Stephen Flynn.

Leia mais: http://blogs.independent.co.uk/2012/11/08/living-life-on-d-edge-renato-ratier-on-his-club-and-the-brazilian-scene/





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