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2013-01-10_The-Sun

Don’t push me cos I’m close to D-Edge

CLUBZ trocou uma ideia com o entrepeneur, proprietário de club, DJ e dono de label Renato Ratier sobre a ascensão da cena brasileira da música eletrônica.

Samba … o mentor por trás do D-Edge Club de São Paulo, Renato Ratier
Por ALEX JUKES
Publicado: 10 de Janeiro de 2013

Como um entrepreneur, proprietário de club, DJ e dono de selo, Renato Ratier é bem qualificado para discutir a jovem cena eletrônica do Brasil.
Mentor por trás do D-Edge de São Paulo e sócio do igualmente renomado Warung Beach Club, Ratier não é apenas um residente em ambos, mas também (compreensivelmente) uma figura central na cena como um todo.

Apesar de que o D-Edge original em Campo Grande – que ele ajudou a estabelecer em 1996 – fechara há algum tempo, seu trabalho subsequente, com a influência gerada na cena eletrônica do Brasil, foi devidamente aclamada como genuinamente ímpar.

Com seus mais de um metro e oitenta de altura, Ratier é um tipo literalmente maior do que a vida, e um que a vive ao máximo.

Ele também é precisamente a mente que queríamos coletar quando partimos na nossa recente expedição brasileira.

E foi assim que nos debruçamos com o extremamente divertido, citável e prolífico Sr. Ratier para reunir suas opiniões sobre um grande número de assuntos, tudo de economia a música e ao novo D-Edge do Rio, montando assim o esqueleto de um longo e instrutivo papo dos mais intrigantes…

RENATO RATIER sobre…
Sua trajetório empresarial

O principal ramo da minha família é agricultura e pecuária.

Eles também têm alguns depósitos, então eu comecei com isso.

Comecei a organizar festas por volta dos 16 anos de idade.

Depois parei por um tempo pra fazer a faculdade, cursei uma espécie de agronomia.

Então me mudei pro Rio pra estudar Direito, mas na verdade logo decidi parar e fui morar nos Estados Unidos por alguns anos.

Aí voltei pro Brasil e comecei a trabalhar com moda e festas.

E em 99 abri um clube.

Foi tipo uma bola de neve a partir daí.

O DJ que influenciou sua carreira musical

Pra falar a verdade, nunca houve, foi só quando mudei pra Europa que comecei a sacar alguns DJs de verdade.

Antes, (quando Ratier morava) lá na California, a música eletrônica estava bem longe de ser meu único interesse, entende?

Em 1993 eu ainda estava mais interessado em bandas tipo Depeche Mode do que nos vários DJs ou tipos de música de rave.

Em 1995 eu fui ver os Chemical Brothers e a música deles começou a me impressionar.

Eu gostava de house e techno de Detroit, mas o techno nunca me ganhou pra valer mesmo naquela época.

Simplesmente me parecia muito rápido, eu me interessava mais por melodia.

É claro que minhas opiniões e gostos mudaram bastante ao longo dos anos.

O D-Edge original em Campo Grande

Bem, minha família é daquela região (Campo Grande), portanto abri um club lá.

É uma cidade pequena se comparada a São Paulo, mas foi uma ótima experiência para mim.

Quando eu o abri em 96, era uma loja de música, uma balada e uma loja de roupa.

E desenvolvemos a partir daí.

Mas eu fechei porque abriram um hospital na frente do club.

E foi assim que minha vida tomou um rumo diferente.

Aprendendo com a experiência

Eu aprendi (com o colapso do D-Edge Campo Grande) a não desistir.

Aprendi a perseverar, a acreditar em mim mesmo e ser paciente.

Aprendi que é importante juntar coisas diferentes e pessoas diferentes em um mesmo lugar.

Aprendi que é importante juntar as pessoas, independentemente de estarem interessadas em música, arte, filmes, o que for.

A música eletrônica se transformou em algo que liga tanta gente; pois é, eu aprendi muito com a experiência.

Separando interesses musicais e profissionais

Nunca houve um momento em que eu decidi dedicar minha vida aos dois.

Foi tudo muito gradual e orgânico.

Eu não gosto da ideia de que estou me dedicando a apenas uma coisa.

É claro, eu amo a música, mas não quero me limitar a apenas uma atividade.

Não gosto de ser apenas DJ, tampouco desejo ficar apenas no escritório.

Para mim, ambos são igualmente importantes. Gosto de ser livre, não quero viver com amarras.

A inspiração para o D-Edge

O D-Edge não é de fato inspirado em outros clubs.

Quando começamos o club, queríamos que fosse único.

O (designer) Mitu Randolph tinha uma mentalidade parecida, porque queríamos fazer algo diferente.

Quando bolamos ::: desenvolvemos [came up with] o conceito, queríamos fazer algo parecendo uma máquina, como se houvesse um monte de ideias diferentes e todos os espaços fossem uns hardwares gigantescos.

Para o primeiro ambiente queríamos uma porrada [montes] de cores, o segundo é quase retrô, mas futurista com todas as luzes.

E isso é como São Paulo, de certa forma.

Música é a resposta… baladeiros no D-Edge paulistano

A galera do D-Edge

Bem, tomou um tempo para que a influência [do D-Edge] fosse sentida [na cidade].

Mas tivemos sorte porque tínhamos um núcleo fiel de fãs, e após a expansão do club (o D-Edge se ampliou para 3 ambientes em 2010) imediatamente tivemos mais gente interessada e envolvida.

Ao mesmo tempo, foi bom para algumas pessoas, que passaram a ter um novo lugar pra ir e ouvir a música que eles adoram.

Ajudamos a criar uma cena e o club ganhou um público cativo.

Demos uma alternativa às pessoas, e passamos a ser como uma família para nossos visitantes habituais

O efeito da (bem documentada) expansão do clube

Quando abrimos os novos ambientes: várias pessoas vieram ver, gente que nunca tinha estado no club antes.

Algumas pessoas não encararam muito bem isso, viam os novos visitantes como invasivos, de certa forma.

Mas logo depois a multidão deu um assentada, ficou mais consistente, e o público que entrava o fazia pelos motivos certos.

Agora, creio que temos uma galera incrível toda semana, e tentamos abarcar todo tipo de gente, receber bem todo mundo.

O impacto da economia na galera do D-Edge

Bem, é uma coisa interessante, porque sempre nos orgulhamos de sermos abertos para todos, independemente de onde vêm, o que fazem, o que vestem etc. e sempre atraímos um tipo diferente de galera.

Então não, a situação econômica não trouxe um novo público ou algo do gênero.

Não estamos interessados em ser um club elitista; todos são iguais no D-Edge.

Mas sempre atraímos uma galera que talvez não seja “típica” se comparada com o resto do Brasil.

No Brasil, de qualquer forma, as diferenças tendem a ser mais culturais do que econômicas.

Mas sim, como eu disse, o nível social não é importante no club, e essa é a essência do clubbing, não é?

Manter o ritmo ::: manter a harmonia e juntar as pessoas… Keeping that balance and bring people together…

A perspectiva de concorrência pro D-Edge em São Paulo

Bem, temos duas visões distintas sobre isso.

Por um lado, seria ótimo porque faria a cena aumentar.

Mas ao mesmo tempo, a concorrência pode afetar o club.

Como eu disse, sou um DJ e um empresário.

Quer dizer, se eu não estivesse envolvido com o lado dos negócios da coisa, poderia ser que eu visse isso de outra forma! [risadas]

Sua maior conquista até o momento

Sou bem orgulhoso do trabalho que fiz no Sul do Brasil, porque lá eles são habitualmente mais conservadores quanto à música.

Porque, em um nível cultural, é a parte mais importante do Brasil.

Pois lá você tem cidades de apenas 100.000 habitantes e dá pra manter uma cena só nelas.

Então formar um público ali foi algo muito especial para mim.

Os tipos de deep house estão ficando mais populares lá e isso me serve: a música está ficando mais acessível, e o sucesso do Warung, a imensa galera que ele atrai hoje em dia, é um forte indicativo disso.

Warung Beach Club

É um club deslumbrante; um lugar com uma verdadeira beleza.

Mas assim que me envolvi, saquei que tinha um pouco que mudar a linha musical, para que fosse mais deep e melodiosa.

É difícil, pois temos mais sócios lá, para mudar é um pouco mais difícil.

Além disso, o club só abre uma vez por mês durante o verão e uma por semana nos outros meses.

Por outro lado, essa programação nos serve bem porque as pessoas ficam esperando mais aquelas noites.

Mas não estou trabalhando sozinho lá, então tenho que ter noção dos outros.

Daí que tenho que fazer as coisas de uma certa maneira, sem forçar.

Estamos tentando administrar lá de uma forma parecida a que fazemos no D-Edge, não apenas quanto ao club mas também quanto ao marketing etc.

O recém-formado label do D-Edge

Pois é, tivemos uns seis releases mas aí é que está: temos que aproveitar melhor nosso tempo.

Temos muito mais coisa que queremos lançar.

Mas encontrar tempo é sempre uma questão, um pouco.

Pois em coisa de dois anos tivemos algo como7 releases e dois caras trabalhando nisso.

O label é o que vai botar a gente no mapa global.

Ofuscado pelas luzes… A iluminação insinuante do D-Edge em sua potência total

O apelo global do D-Edge

Bem, o crescimento do club tem sido bem orgânico, e também já há algum tempo reconhecemos que estávamos numa boa iniciativa.

Tenho orgulho das minhas conquistas com o club, mas isso não mudou quem eu sou.

Na real, é apenas uma coisa para dividir com os amigos, mesmo.

E um ano depois eu já sabia que precisávamos de um novo ambiente, com uma proposta musical nova, então sempre tive grandes ambições para isso.

Mas estou sempre à procura de formas para melhorar o club.

Seus planos para o D-Edge no Rio de Janeiro

Para o Rio, eu tive a ideia e me tomou um tempo para encontrar um lugar propício.

Mas eu queria achar um lugar pra fazer mais do que um club.

Fiquei com essa ideia por dez anos!

Vinha buscando esse lugar há 8 anos e só pude avançar bem recentemente.

E encontrei um lugar onde poderia montar um club, uma galeria, um restaurante, uma loja e um estúdio.

Vai ser um lance cultural, não vai depender apenas da vida noturna, entende?

Então, para mim, é uma coisa bem especial mesmo, estou numa grande expectativa pela abertura.

Sua responsabilidade pela cena brasileira

Eu realmente não penso assim, pois não sou político e não faço isso pra ganhar dinheiro – eu faço porque amo a música.

Se você quer fazer e pode fazer, por que não?

Talvez eu sinta alguma responsabilidade sim, mas apenas porque não vejo muitos outros com a mesma oportunidade que tenho.

Vejo gente que quer fazer mas por motivos errados, e estes nunca duram.

Nunca entendo esses agentes aqui que trabalham no nível comercial e no underground.

Meu conselho?

Faça-o porque tem seu coração nisso!

O futuro da cena da música eletrônica do Brasil

Eu acho que só vai ficar maior, mais especial… e ainda melhor!

O D-Edge abre um novo club no Rio de Janeiro em abril de 2013 & o Renato Ratier lança seu primeiro EP solo pelo D-Edge Records no começo de fevereiro.

Mais informações sobre o D-Edge podem ser encontradas aqui.





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