•  Stefan Goldmann

Techno e house sempre foram um exercício de imaginar o futuro e sentir a emoção da mudança e da descoberta. Se alguém viveu essa aspiração nos últimos anos, ele é Stefan Goldmann. A cada novo lançamento ou projeto, ele trouxe uma novidade para a mesa, criando algumas das faixas mais memoráveis dos últimos anos. A batida suja de “The Maze”, a loucura melódica de “Sleepy Hollow” e os coros descentralizados de “Lunatic Fringe” foram responsáveis por injetar um novo fôlego em pistas de dança e mostraram novos caminhos para DJs e produtores.

O escopo do seu trabalho é vasto ele cria desde hits de techno underground a produções maiores de música em teatros, por exemplo. No entanto, no final, tudo o que faz, conta sempre com os principais recursos extraídos techno. Para ele, as nuances internas de uma faixa e alguns dispositivos por trás desse estilo podem ser extraídos e re-aplicados em contextos mais amplos –essas são as principais linhas de pensamento que ele tem seguido rigorosamente.

Depois de lançar para selos como Perlon, Classic, Ovum, Cocoon e Innervisions, Goldmann fundou o seu próprio label, o Macro, em 2007, juntamente com Finn Johannsen e logo criou grupos amigos de artistas, em vez de reunir somente seguidores em seu casting. Por exemplo, Macro tornou-se a casa de Elektro Guzzi, um grupo de proeminentes que criavam música techno em tempo real por meio de instrumentos ao vivo. Macro também lançou faixas de artistas com um histórico longo na música eletrônica, como Patrick Cowley, KiNK e Peter Kruder. Apresentar o trabalho de gente de diversas áreas dentro desse escopo da música em níveis de referência faz parte da bonita política de funcionamento da Macro. Ao vivo, essas constelações foram apresentadas em eventos em Berlim, Londres, Paris, Viena, Nova York, Tóquio e muitas outras cidades. Com a Macro, Stefan Goldmann criou um contexto e uma boa saída para seus objetivos que estão sempre em movimento.

Como um associado do emblemático clube alemão Berghain, de Berlim, Stefan Goldmann discoteca no local e já promoveu as noites no Elektroakustischer Salon, além de escrever uma coluna para no flyer com a programação do clube.

Leia a entrevista com o alemão feita em dezembro de 2015:

Stefan, você disse que a chave para a longevidade no mercado é ter coragem e manter seus os princípios, então aí vão duas perguntas: qual é o seu princípio criativo mais precioso? Você consegue se lembrar de um dos primeiros momentos em sua carreira no qual ter coragem foi essencial?
SG – Copiar o comportamento bem-sucedido é uma característica humana. Muitas pessoas no começo da vida imitam os seus heróis. Eles querem suas trilhas soando como aquelas de seus ídolos , como as de DJs que eles gostam. Mas agora temos centenas de milhares de pessoas que produzem faixas e discotecam também, então se torna um problema se você ouve exatamente o mesmo som em todos os lugares. Como uma experiência para o público, isso não é suficiente. É exatamente como ter uma cidade e todos os restaurantes servirem apenas pizza, tudo no mesmo estilo e mesma qualidade. Por isso, quando você esta a fim de fazer algo interessante, às vezes você tem que abandonar o óbvio e procurar mais. Se você toca em uma festa onde toda a música parece igual, colocar uma música que quebra esse padrão é como encontrar água no deserto.
Eu sempre tento estar atento a ideias novas, dando um pequeno passo de cada vez. Quero fazer música para a vida e para que ela não se torne chata, então me pergunto: o que aconteceria se eu desafinasse este sintetizador ou se eu mudasse a batida? Na discotecagem é igual. Às vezes eu vou tocar uma música totalmente estranha em um grande palco e uma musica marcante e grandiosa num pequeno clube underground – e isso funciona incrivelmente. Não estou falando sobre revoluções radicais, tipo mudar e acabar com tudo que você ama, mas sobre como manter as coisas interessantes. Às vezes é somente usando pequenas idéias e seguindo a minha própria curiosidade. Eu acho que a curiosidade é a coisa mais importante para preservar em sua personalidade. Se eu parar de ser curioso, eu começo a querer apenas tudo o que eu já sei e não há motivo para continuar fazendo isso.

O que você tem feito nos últimos meses? Qual são as impressões e destaques de sua turnê?
SG – Estive viajando e trabalhando mais do que nunca. Como o tempo de produção no estúdio é muito importante para mim, não posso estar na estrada o tempo todo. Porém, nos últimos meses, eu tive a chance de viajar extensivamente por regiões como Japão, América do Sul e o leste europeu. Eu prefiro gastar mais tempo em um país ou área específica do que fazer turnê de cinco continentes em duas semanas. Sempre quando posso, gosto de ficar mais um pouco no local depois de terminar o trabalho, pois tenho vontade de aprender sobre o lugar, conhecer a comida, ver como as ruas são, como as pessoas percebem a música e como organizam suas festas. Isso costuma me dar novas ideias quando estou de volta ao estúdio.

Na coluna que você escreve para o Berghain, o mítico clube berlinense, você comparou música eletrônica mais popularesca com o sabor mega-açucarado de Pepsi, que é insuportável a longo prazo. Como você vê a ligação do público mais jovem com a música eletrônica nos últimos anos? Como você compara esse momento com a época em que você começou sua carreira?
SG – Falei isso para me referir particularmente ao trance/house híbrido que você pode ouvir nos clubes agora. Ao mesmo tempo, existe outro tipo da musica eletrônica que é também bastante popular, mas ao mesmo tempo bem diferente. Pense sobre artistas como Nina Kraviz, Ricardo Villalobos, KINK, Ben UFO e até mesmo o som que toca hoje no Berghain… Todas estas coisas acontecem em paralelo e isso é legal. Grandes eventos comerciais de vez em quando pegam certas influencias do underground. Engraçado foi que com neotrance aconteceu o contrário: o som comercial que entrou no underground. Pessoalmente, não acho que essa moda pode durar muito tempo na cena mais underground. É música para arenas, não para os clubes. Acho que as pessoas são mais atraídas para ir a clubes, porque é uma experiência social diferente de ir a um evento numa arena onde todos podem comprar ingressos e você não sente nenhuma conexão direta com a maioria do público. Nos clubes, você tem uma troca muito mais intensa entre as pessoas –você pode interagir com gente que nunca viu na vida de formas bem específicas, que só ocorrem ali. A música, portanto, terá que refletir isso. Se a musica é feita para ser tocada numa arena, simplesmente não vai funcionar em um clube.

Seus próprios critérios versus o mercado em termos de produção. Como você descreveria o seu som e que gêneros musicais foram os mais influentes no seu processo criativo?
SG – Eu gosto da música diferente e eu gosto de pessoas que se atreveram a fazer coisas que fizeram com que eles se destacassem radicalmente. Miles Davis é tão importante para mim quanto Jeff Mills ou Plastikman, por exemplo. Durante muitos anos anos escutei absolutamente tudo, desde metal, passando pelo jazz e indo até o drum’n’bass. Em vez de estilos ou gêneros, o que mais me interessa é ouvir boa música, independentemente das classificações atribuídas. Meu próprio trabalho é centrado no techno, por isso a maior parte do tempo as coisas que eu faço ficam entre 120 e 128 bpm, mas também eu já fiz muitos projetos fora dos clubes que às vezes estavam fora dessa batida. Ainda assim, eles apresentaram algum outro aspecto do techno. É a tal música de infinitas possibilidades e eu gosto de explorá-las.

Quais são as últimas novidades sobre a sua gravadora, a Macro? Como vocês escolhem os artistas que vão fazer parte do selo?
SG – Na Macro, nós temos sido muito cuidadosos com a forma como trabalhamos com os artistas. Acho muito importante dar atenção para seus artistas. Você não pode fazer isso com uma lista de cinquenta artistas diferentes. Por esse motivo, por algum tempo tivemos apenas quatro ou cinco pessoas que lançavam pela Macro. Recentemente, encontramos alguns nomes novos e estamos realmente animados com essa nova etapa em que já podemos contar com DJs e produtores como L’estasi Dell’Oro, rRoxymore, Anno Stamm, Kink e mais dois artistas que chegarão no próximo ano. Kink é, obviamente, um superstar, mas sempre é bacana encarar uma aventura com artistas que têm idéias bem forte e fazem um som único. Nós nunca olhamos para as expectativas de vendas a curto prazo, mas na força do conceito ou na ideia do projeto. Macro cresceu bem ao longo dos últimos sete anos e o motivo desse sucesso é que nós não trabalhamos com artistas que perseguem o som do momento, porque o que é quente hoje, amanhã estará queimado.

Você conhece a produção de música eletrônica da América do Sul, particularmente aqui do Brasil? Lembra de algum artista daqui?
SG – Sepultura é considerada como uma banda de música eletrônica? Ok, estou brincando. ☺
Conheço o trabalho de gente como Gui Boratto, DJ Marky, Renato Ratier e Amon Tobin. Fora do Brasil, mas ainda na América do Sul, provavelmente os chilenos foram os que tiveram o maior impacto na cena de Berlim. De vez em quando algumas faixas dos produtores brasileiros chegam ate meu ouvido, mas eu tenho certeza absoluta que há muito mais para explorar. E estou ansioso para fazer isso!
Em relação às minhas influência das heranças culturais, a conexão com o trabalho na maioria dos casos é realmente óbvia, mas com a música eletrônica isso acontece de forma mais indireta. Provavelmente devido ao fato de que os instrumentos e os programas que usamos são os mesmos no mundo inteiro. Nós também somos influenciados pelas mesmas trilhas eletrônicas e, por isso, é muito difícil ouvir uma faixa nova e dizer se o produtor dela é brasileiro, norueguês, búlgaro ou berlinense. É um diálogo entre humanos e máquinas. Nas minhas musicas você provavelmente não capta que eu sou metade búlgaro. Talvez você pode pensar que eu sou de Berlim, por causa do estilo.
Por que você considera que explorar o desconhecido não é somente mais divertido, mas também mais gratificante?
Se você mora no Brasil, o que soa mais empolgante: ir à praia mais próxima ou para uma viagem de exploração da Antártica? Além de ser mais divertido, no longo prazo, você também terá melhores resultados em não seguir o caminho mais óbvio. Isso acontece porque ninguém é dono daquilo que é desconhecido. A arte está ligada as idéias que estão nas mentes das pessoas. Os seus artistas favoritos, cada um deles, têm feito algo que as pessoas atribuem a eles – e eles desenvolveram um som que mudou o que outros artistas fazem. Eu acho que, desde os tempos antigos, a aventura de ir para fora e explorar algo novo foi recompensada, inclusive socialmente. Nós valorizamos quando as pessoas fazem descobertas para nós. Na musica, nós valorizamos mais os artistas que fazem as coisas de forma diferente em detrimento daqueles que seguem as ideias existentes e apostam no lugar-comum.

O melhor conselho para dar para quem quer trabalhar com música eletrônica é …
SG – Eu não sei se este concelho ele é o melhor, mas foi o que veio à minha mente: na produção de música, é importante limitar suas ferramentas. Escolher três máquinas, instrumentos ou certos programas de software e brincar com eles por anos e ignorar atualizações ou inovações. Opte por saber tudo sobre uma coisa, não um pouco de muitas coisas. Em relação ao desempenho, é importante encontrar um grupo de pessoas que pensam similarmente e entendem sua arte, para que de alguma forma vocês possam construir algo juntos. A música é uma coisa social: apoie as pessoas e elas vão apoiá-lo em troca.

[Entrevista por Arjana Vrhovac Jonsson]




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